E o deficiente auditivo?

Saiba como incluir o aluno surdo nas atividades rotineiras, com estratégias e recursos adequados na sala de aula

Por Marília Piazzi Seno | Foto Carlos Rincon | Adaptação web Isis Fonseca

Aluno deficiente auditivo

Para escutar, normalmente, é necessário que todas as partes do aparelho auditivo estejam funcionando bem. Quando qualquer elemento desse mecanismo falha, a audição fica prejudicada de alguma forma, tanto que existem quatro tipos de perda auditiva – condutiva, neurossenssorial, mista e neural –, cuja classificação depende da parte do ouvido que está afetada.

Mas como também podemos nascer com deficiência auditiva (congênita) ou adquiri-la posteriormente, os graus dessa perda ainda se dividem em leve, moderado, severo e profundo, de acordo com a intensidade de som que qualquer pessoa é capaz de detectar. Além disso, a perda auditiva pode ser em apenas em um ouvido (unilateral) ou em ambos (bilateral).

De qualquer maneira, o comprometimento na aquisição e no desenvolvimento da linguagem, assim como a compreensão do mundo que nos cerca, vai depender do grau dessa perda. Uma perda leve pode dificultar a discriminação de alguns fonemas (p/b, t/d, f/v, c/g), acarretando a troca dessas letras no momento de falar.

Já nos demais graus de perda, o ouvido não capta os sons da fala. Portanto, sem o uso de alguma tecnologia assistiva, não se ouve bem a fala nem certos barulhos. Essa privação tem como consequência um comprometimento na aquisição da linguagem oral, que não envolve apenas falar, mas também compreender e fazer a relação de significante com significado.

Diante de um aluno com perda auditiva

A escola como um todo deve se conscientizar que, a acessibilidade que garante a inclusão dos alunos com perda auditiva em sala de aula regular, vai depender das necessidades apresentadas por eles mesmos. Mas até as crianças que fazem uso de aparelhos que amplificam o som e se comunicam oralmente, precisam de alguns cuidados especiais, para que sejam garantidas a elas as condições de aprendizagem das demais.

Colocá-las próximas à professora, reduzir os ruídos em sala de aula, providenciar a compra de um sistema FM, são ações efetivas que possibilitam a real inclusão. Porém, no caso das crianças surdas que usam a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a acessibilidade vai além, porque significa garantir a comunicação e compreensão do conteúdo.

Portanto, há duas situações distintas:

1) se o aluno já conhece a linguagem dos sinais e faz uso efetivo dela, basta colocar um intérprete de Libras em sala de aula para que o conteúdo seja acessado por ele.

2) no entanto, se o aluno não conhece tal linguagem, um intérprete nunca será efetivo, pois ele necessitará de um professor de Libras, que irá ensiná-lo o novo código que, depois, irá ajudá-lo a se alfabetizar. Portanto, primeiro, a criança precisa dominar a Libras para depois ser introduzida no português que, por sua vez, passará a ser sua segunda língua.

Tomada essas providências, ainda caberá ao professor:

  • Colocar o aluno, com deficiência auditiva, sentado na primeira carteira, sempre com o melhor ouvido voltado para sua direção, para que ele não perca informações.
  • Incentivar a participação dele na aula.
  • Caso a criança faça leitura labial, ficar sempre em frente a ela, usando tanto uma velocidade de fala mais lenta quanto uma melhor articulação das palavras (mas sem exageros). Consequentemente, também é conveniente evitar janelas, pois o reflexo atrapalhará a leitura orofacial.
  • Nunca passar os exercícios na lousa e, ao mesmo tempo, explicar.
  • Repetir os comentários mais de uma vez para facilitar a compreensão do aluno.
  • Utilizar novas palavras em diferentes situações e contextos para que ele consiga entender seu significado.
  • Lembrar-se que, durante as provas, o deficiente auditivo necessitará de um tempo maior para realizá-las.
  • Quando necessário mandar recados na agenda ou caderno, escrevê-los de próprio punho, para assegurar-se que as mensagens serão entendidas.
  • Tocar no ombro do aluno nos momentos em que precisar de sua atenção.
  • Colocar um colega de sala de aula junto ao aluno deficiente auditivo para auxiliá-lo quando for necessário.
  • Avaliar o progresso do deficiente auditivo em relação ao seu próprio desenvolvimento, sem nunca compará-lo com os demais alunos.
  • Conhecer o aparelho auditivo ou o implante coclear usado pela criança e ainda ficar atento se ele está funcionando perfeitamente ou não.
  • Informar-se sobre o grau da deficiência auditiva do aluno para poder lidar melhor com ele.
  • Procurar profissionais que já atendam a criança para saber detalhes sobre o seu desenvolvimento (fonoaudiólogo, professor da sala de recurso ou reforço, por exemplo), pois na maioria dos casos, devido à perda auditiva, ela encontra mais dificuldades para se alfabetizar.
  • Notar que, a escrita do deficiente auditivo sempre dependerá do grau da perda, do uso ou não de prótese e da língua que utiliza para se comunicar. Por isso,
    trocas do tipo “p”/ “b”, “f”/ “v”, “ch” / “g”, “c”/ “g”, “t”/ “d” são frequentes. Além disso, a escrita das pessoas que usam Libras não tem pronomes, verbos de ligação, artigos nem diferenciação de gêneros.

Adaptado de Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 142