Contar para criar e comunicar

Arte-educadora e psicopedagoga, Marcia Lisboa, explica que a contação de histórias é um elemento essencial no desenvolvimento de competências artísticas e da linguagem.

Por Redação / Adaptação Web Rachel de Brito

contação de histórias aprendizado infantil

Marcia Lisboa é bacharel em Artes Cênicas e licenciada em Educação Artística pela Unirio (RJ). Psicopedagoga e especialista em Orientação Educacional e Pedagógica, desenvolveu o curso de Práticas Lúdico-Artísticas de Contação de Histórias, em parceria com a Casa de Educação de Rio das Ostras (RJ), formando diversos professores da rede municipal e comunidade.

É autora dos livros Para Contar Histórias: Teoria e Prática, Jogos para uma Aprendizagem Significativa e O Livro Mágico, todos publicados pela Wak Editora e nesta entrevista destaca a importância de se contar histórias e traz um pouco do seu dia a dia com os pequenos, em vivências significativas, que ilustram bem a sua preocupação com o tema.

Segundo Marcia, “a maior contribuição para alcançar a linguagem escrita e a leitura de mundo, e não apenas de signos, é o estímulo à imaginação”. E para isso, diz a autora, a contação de histórias se aplica e muito.

Como recurso lúdico, artístico e educacional, Marcia considera que “ouvir e contar histórias são transversais a todas as áreas do conhecimento e aos componentes curriculares que as compõem”. Além disso, “ao contarmos histórias, podemos distrair, contagiar ou alegrar, o que é maravilhoso”.

Essa e outras afirmações e considerações você confere a seguir.

O que é mais importante no processo (ou na técnica) de contar histórias??

Marcia Lisboa: É preciso gostar de ser um contador de histórias, envolver-se com a história, comprometer-se com o planejamento e a execução da contação de histórias, conforme colocado no meu livro Para Contar Histórias. Parece simples, mas a dificuldade reside na plateia, especialmente se for composta por crianças. Elas sabem quando o contador não está envolvido. Você pode se perguntar: será que gostar é o suficiente? Eu responderia que depende. Se for um familiar interagindo com seu ente querido, desenvolvendo um laço afetivo e literário, muito bem! Dever cumprido! Porém, se o desejo é ser um contador de histórias profissional, criar rotinas com a turma e/ou atuar na sala de leitura, eu não acredito que seja suficiente ter vontade e gostar. Será necessário estudar, e dependendo dos objetivos, e do profissional, os estudos poderão percorrer caminhos diversificados. Se o objetivo é ser um contador de histórias profissional, tanto na escola quanto em outros espaços, considero que seja necessário entender a história e as personagens que se desenham nela, seus caminhos, suas decisões e escolhas. Analisar o texto, e gostar do que está fazendo, sentir-se pesquisador e coautor, um detetive desvendando subtextos e intencionalidades. Estudar a voz e a expressão vocal, o corpo, a interpretação, o canto, e um pouco de música e ritmo. Mas isso é o que eu penso, é o que faço nos meus cursos de formação, é o que digo para as professoras, os professores, terapeutas e outros profissionais que me procuram com o desejo de fazer do seu corpo o recurso mais importante para sua expressão, mesmo que sentados em um banco com o objeto livro na mão. É importante clarificar que NÃO existem regras, qualquer um pode contar uma história. A diferença reside nos seus objetivos profissionais, seja na educação, na saúde ou em qualquer outra área. Os limites são pessoais e ultrapassá-los depende do desejo de cada um.

De que forma a prática pode contribuir na disciplina de Artes?

Marcia Lisboa: Considero que ouvir e contar histórias são transversais a todas as áreas do conhecimento e aos componentes curriculares que as compõem. O documento de caráter normativo, que define o conjunto de aprendizagens consideradas essenciais e básicas, a BNCC – Base Nacional Curricular Comum (Brasil, 2017) –, situa a Arte na área de linguagens, junto a outros três componentes curriculares: língua portuguesa, língua estrangeira moderna e educação física. O componente curricular Arte, no ensino fundamental, está centrado nas linguagens: das artes visuais, da dança, da música e do teatro. Que compreendem as práticas de: criar, ler, produzir, construir, exteriorizar e refletir sobre formas artísticas. As subjetividades, o pensamento, a sensibilidade, a intuição e as emoções se apresentam como formas de expressão. Consideramos que essas formas também se manifestam nas práticas lúdico-artísticas de contadores de histórias, a um só tempo, poderão se inserir transversalmente, e diretamente. Como meio para se expressar nas quatro linguagens artísticas. Tanto utilizando a linguagem verbal, dramática, épica e poética, quanto extrapolando-a com a utilização exclusiva de imagens, sons, movimentos corporais, desenhos melódicos, rítmicos e canções que nos contam histórias. A prática de contar histórias poderá se constituir como canal expressivo e interdisciplinar entre as linguagens do componente curricular Arte.

Qual a melhor maneira de envolver a plateia infantil para que não se torne mera ouvinte?

Marcia Lisboa: Na minha perspectiva, a plateia nunca é apenas ouvinte, mesmo em silêncio seus corpos e suas expressões falam, muitas vezes até as respirações gritam ou sussurram. Essa interação é constante, e se ela não existir, se quem estiver contando a história não atingir o seu público, será importante repensar a prática e perceber o que houve. Não considero que verbalizar seja sinônimo de interagir ou participar, muitas vezes uma plateia silenciosa está participando e interagindo mais. Quanto ao que fazer para envolver a plateia, eu tenho uma resposta rápida: verdade. E não me refiro a verossimilhança, estou falando de SER VERDADEIRO. Um bom exemplo é o faz de conta, se o contador de histórias “fizer de conta” que está comendo uma maçã, ele deverá sentir e agir com verdade, algo de dentro para fora. O que vier após isso será muito bem-vindo, porém, para mim, a centralidade está em agir com verdade, tudo o mais será acessório.

A prática é conduzida de maneira satisfatória ou com a frequência desejada no ensino fundamental?  Quais são suas considerações a respeito?

Marcia Lisboa: Nos anos iniciais do ensino fundamental eu observo uma preocupação maior, tanto com o ato de contar histórias quanto com o manuseio do objeto livro e o incentivo a visitas frequentes à bibliotecas e/ ou salas de leitura. Muitas unidades escolares desenvolvem projetos de leitura que envolvem o contar e o ouvir histórias, como: A hora do conto, Piquenique de histórias, Troca-troca de livros, rodas de leitura, formação de grupos de contadores de histórias. Todavia, infelizmente, ainda percebo em muitas escolas e em profissionais da educação um olhar utilitário ligado à literatura e ao ato de contar histórias, uma busca por justificativas externas às expressões literárias e ao ato de contar histórias. Quando nos referimos à literatura e à contação de histórias, estamos mencionando expressões humanas, que não necessitamos de “desculpas” ou “utilidades práticas” para fazer parte da rotina escolar, elas se bastam e se autojustificam, estão em nossas vidas, e, se algo faz parte da vida, deverá fazer parte da escola. Quanto aos anos finais do ensino fundamental, a prática de contar e ouvir histórias diminui drasticamente, e a leitura passa a ser frequentemente relacionada às obrigações e tarefas, o que é lamentável.

Que contribuições poderia trazer ou traz nos índices de alfabetização e/ou leitura?

Marcia Lisboa: Essa parece ser uma pergunta fácil, mas não é. Para respondê-la com maior precisão, seria necessário investir em pesquisas que estabelecessem a correlação entre oralidade, contação de histórias e alfabetização/leitura. Ao contarmos histórias, podemos distrair, contagiar ou alegrar, o que é maravilhoso, mas consideramos que a maior contribuição para alcançar a linguagem escrita e a leitura de mundo, e não apenas de signos, é o estímulo à imaginação. O que também ajudará no desenvolvimento emocional e intelectual. Tudo está interligado! Antes da aquisição da leitura e da escrita, e ao longo do seu crescimento, as crianças participam de experiências e processos ligados ao alcance de conhecimentos determinantes para a obtenção da escrita formal de um idioma e da competência leitora. Um outro aspecto é a curiosidade. Quando o professor conta histórias, forma-se um canal com o lúdico, emocionando, envolvendo e alimentando o imaginário da criança. Ao estimular sua imaginação e sua criatividade, o contador de história desperta também a curiosidade, de onde podem surgir desejos e questionamentos: De onde saíram às histórias? De onde veio esse conto? De que livro foi tirado? Será que foi inventado? As indagações poderão levar o ouvinte a buscar o livro do qual a história foi tirada ou outro livro, seja para ler ou manusear. Portanto, mostrar o livro de onde a história “saiu” poderá estimular a reprodução da ação de contar e de ler, o que provavelmente irá motivar o ouvinte a buscar outras histórias em outros livros. Tenho uma experiência para dividir. Certa vez, eu estava numa tarde de autógrafos em uma escola, contando histórias e cantando canções de um dos meus livros, O Livro Mágico, cujo tema é a descoberta do prazer da leitura. Ao contar uma das histórias, a da Jovelina, uma cantora de baião, que se alfabetizou tardiamente, um menino da educação infantil, com quase 5 anos, como ele descreveu, me pediu para ver a Jovelina (um fantoche de mão). Quando a tirei da maleta, ele disse, baixinho para “ela”: “eu também não aprendi a ler, mas sei fazer meu nome”. Soube pelas professoras que ele não abandonava o nosso livro, que lia as imagens, especialmente a da Jovelina, e reinventava a história para os amigos “fazendo de conta” que sabia ler. Eu tive a sorte de presenciar vários momentos assim, inclusive com o ensino fundamental até o quinto ano. Após contar as histórias, a maioria das crianças, elas queriam ler o que eu havia terminado de contar. Então, sim, eu acredito que quando se contam histórias com verdade, comprometimento, planejamento e envolvimento, essa ação contribuirá para a alfabetização e leitura de mundo.